Que ténues linhas de sol eram aquelas que entravam pela janela? Divididos em vários devido a cada gotícula de chuva que ali se acumulara, os raios cintilavam e dançavam entre si. Era como se tivessem encontrado perfeita harmonia e plenitude, depois do que tinha sido a maior tempestade de sempre. Houveram tantos cinzentos e amargos dias, que Eliza tinha-se esquecido do que era o sol. O caloroso e convidativo sol. Não que ela não gostasse de chuva e dos relâmpagos - ah, e os dois juntos! - o quanto a deixavam elétrica, num êxtase dormente!
Eliza achava que tal como o céu em dia de tempestade, também a sua alma chorava, regava e transbordava de tudo. Ventos rajavam dentro do seu íntimo e trovoadas rugiam passando despercebidas na multidão muda e surda que a cercava todos os dias. Por isso, sempre que podia, refugiava-se na sua pequena casinha no bosque. Lá, só, podia deixar que as suas turbulências interiores ecoassem pela casa, pela floresta do lado e pelo tempo. Tinha uma certa ingénua esperança que alguém, por acaso, passasse e ouvisse: "Eu toda sou contradições e incertezas. Sou os porquês e os e ses. Não sei se de mim tento tudo ser ou tudo fazer. Não sei que leves brisas tem a vida, nem que marés calmas tem o mar. Venho dos tornados, das cheias, das tempestades. Não me decido entre o frio da neve fresca de manhã e o calor irradiante da areia. Sou indecisa até nas indecisões. Mas quero tanto que me desvendem. Ainda que eu própria não me tenha desvendado." Era um grito surdo, abafado e escondido pelo seu gentil e doce sorriso, acolhedor olhar e gracioso andar.
Eliza era simples e complicada. E imagine-se ser-se os dois ao mesmo tempo... Conseguia ser a personificação da antítese a todos os momentos. Ora achava que o maior dilema do universo era o facto do seu gato Gengibre se comportar como um cão, ora se punha a cismar no posicionamento das estrelas e se tal como as constelações, estaríamos destinados a ter um propósito. Ora lhe apetecia dançar à chuva no meio da rua até que cada mágoa abandonasse o seu corpo, ora caminhava cabisbaixa e com o maior dos desejos de fugir, apenas fugir. Ora se arranjava como se do seu casamento se tratasse, ora vestia a primeira coisa que lhe vinha à mão e ia sujar-se para o seu jardim. Era nas suas flores, couves e maçãs que Eliza encontrava o pouco de plenitude que ela achava que havia neste mundo de loucos. Cuidava e tratava do que semeava com toda a afeição. Como as rosas e as camélias eram a sua única companhia, Eliza falava-lhes. Antes de sair de casa, certificava-se sempre de verificar se estas se encontravam bem e despedia-se. Para falar a verdade, Eliza sempre teve um gosto especial em amizades botânicas desde que em pequenina leu O Princepezinho.
Dos animais também era grande amiga e sempre que podia recolhia animais que encontrava abandonados. Fora assim que tinha conhecido Gengibre. Estava um dia tão intenso de chuva e trovoada, que tudo se tornara da cor acinzentada - as ruas, as pessoas, os carros, os pássaros... Mas ao chegar a casa, Eliza reparou que no seu tapete de entrada dormia uma bola fofinha de pêlo e ternura, tão laranja, que os seus olhos até tiveram dificuldade ao ajustar-se. O gatinho foi desde aquele momento tão carinhoso, tão carismático, que Eliza ficou com ele permanentemente. Fazia-lhe lembrar que até nos dias mais escuros, é possível avistar-se um bocadinho de cor.
Gengibre rapidamente passou a amar as rosas e as camélias de Eliza, assim como o constante cheiro de cozinhados na casa, as meias que ela deixava perdidas em todo o lado e o aroma forte da sua água de alfazema.
Com tão pouco algo lhe arrancava sorrisos, mas com tanta rapidez ela voltava ao seu constante estado melancólico. A melancolia era um sentimento que a acompanhava há tanto tempo, que se havia tornado o seu estado de alma. Quando algo vive connosco durante uma quantidade considerável de tempo, torna-se de certa forma um companheiro nosso. Eliza e a melancolia eram companheiras há tantos anos, que tinham formado uma espécie de amizade, obsessão e dependência bastante particulares. Reconheciam-se e aceitavam-se. Mas naquele dia, Eliza vislumbrou os rastos de sol, as alegrias puras da sua luz... E a partir daí, dia após dia, Eliza foi-se afastando da sua amiga de longa data.
Tudo começou com uma bicicleta. A sua. Haviam dias em que Eliza preferia deslocar-se ao trabalho a pé: parecia-lhe que entrava em contacto mais profundo com a terra. Contudo haviam dias que a trovoada dentro de si era tão vigorosa, que ela sentia que apenas pedalando e pedalando, era a única forma para que alguns dos seus tormentos para trás ficassem. Com ela levava embrulhado um bolo que fizera cedinho, um bloco de notas e a sua leitura atual. Com a pressa de afogar as suas mágoas, pedalava tão furiosamente que nem se deu conta que estava a ir de encontro a outro ciclista. Aconteceu tudo tão rápido que ao levantar-se do chão, apanhar o que deixara cair e retomar o seu caminho; nem se tinha apercebido que tinha trocado as suas coisas pelas do rapaz com quem embatera.
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